quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano cumpriu sua sentença...

"Morre o homem, nasce o mito", costumam dizer quando morre uma pessoa de sucesso. Mas, no caso de Ariano Suassuna, o mito nasceu muito antes do homem morrer. Vítima da beligerância do Golpe de 1930, teve seu pai assassinado muito cedo e refugiou-se - com a sua família - no interior paraibano, para se proteger do Regimen, mudando-se - em seguida - para Recife aonde dá prosseguimento aos estudos e inicia a carreira artística...
Muitos lembrarão do Ariano Suassuna do Auto da Compadecida [os mais metidos falarão da Pedra do Reino], alguns - ainda - lembrarão suas aulas-espetáculo que reuniam multidões de diferentes faixas de idade, de sua passagem pela Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco... Mas, o maior de todos o legados de Suassuna, atingirá às massas - apenas - agora, com a sua morte.
Lembro de ter visto jornalistas se deliciarem com as "respostas malcriadas" do tipo: "A arte norte-americana é uma arte de segunda classe". Mas vi pouquíssimos abordarem o Movimento Armorial que representa uma das mais autênticas manifestações artístico-indenitárias do Nordeste. O movimento era uma espécie de representação erudita da arte popular, esta antítese se manifestava através da pintura, da música, da literatura, da cerâmica, da dança, da escultura, da tapeçaria, da arquitetura, do teatro, da gravura e do cinema; todos inspirados na Literatura de Cordel, na Xilogravura - enfim - na nordestinidade.
Que este legado, ainda intangível, seja objeto de estudo e de promoção da identidade nordestina como, certamente, iria querer o mestre.
Como disse o meu amigo Tito: "Nosso Senhor bem que poderia mandá-lo de volta, como fez com João Grilo". Mas, talvez fosse pedir demais, talvez homens como Ariano Suassuna não sejam deste mundo, talvez o mestre tenha nos visitado para tornar a vida cá embaixo menos cinza, para -  quem sabe - fazer com que nosso povo tão sofrido sentisse orgulho de si mesmo...
Enfim, Ariano vai encontrar-se com Augusto dos Anjos e José Américo de Almeida deixando saudades, mas com a missão cumprida ou,  como disse o próprio escritor: Ariano 'cumpriu sua sentença... Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre'...

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