segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cartas Portuguesas: O doloroso privilégio de amar


Depois de esperas e expectativas, li as chamadas “Cartas Portuguesas” da monja Mariana Alcoforado... Acho que, em relação às obras epistolares, a religiosa só não supera o Apóstolo Paulo e, no nosso idioma, não conheço correspondências mais viscerais.
Após um romance com um oficial do exército francês, em serviço em Lisboa, Mariana apaixonou-se perdidamente e, com a partida do seu amado, entregou-se a um misto de espera, dor e sofrimento voluntário. Suas cartas relatam o seu desespero na espera daquele que, com suas correspondências indiferentes, dava pistas de que não tencionava voltar aos seus braços.
A correspondência mostra uma mente passional, mas com um profundo conhecimento da escrita. Enclausurada no convento, as cartas funcionavam como uma espécie de escape para a moça. Nelas, se nota a submissão e o desprendimento com que ela se dá sem nenhuma espécie de reserva ao objeto de seu amor. A partir da conjunção entre eles, para a moça, ele passara a fazer parte de sua instância, deste modo, sua ausência a tornara incompleta. E, vendo a impossibilidade de se sentir completa mais uma vez, a autora  das cartas se desespera.
Durante anos, as Cartas Portuguesas permaneceram anônimas. Só em 1810 a freira foi reconhecida como autora e, hoje, cinco delas emocionam críticos literários e apaixonados ao redor do mundo. Assim como Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, Mariana ousou amar, ousou mergulhar – sem garantia alguma – nos obtusos braços do desconhecido. Sofreu como poucos, mas, sentiu – de igual modo – o que poucos privilegiados sentem, afinal, como bem disse Hermann Hesse [Prêmio Nobel de Literatura]: “Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito”. Imitando um conterrâneo da notável autora, digo: Abram os umbrais dos céus e perguntem à senhorita Alcoforado se, mesmo sabendo das agruras por que passaria, ela abriria mão de fazer tudo da mesma maneira.
Que nos deliciemos com a leitura destas cartas e aprendamos com a jovem e bela monja.

Nenhum comentário: